Acordei de madrugada lembrando fortemente de minha mãe.
Passou-se mais de um mês desde que ela morreu e só agora senti forte o momento de falar sobre isso...
Mulher frágil e miúda, minha mãe passou por momentos difíceis por toda a vida. Enfrentou bravamente muitas doenças e lutou vigorosamente contra tantas adversidades... Nunca foi de meias palavras, muito menos de se entregar às dificuldades. Sofreu. Tudo aquilo que toda pessoa sofre e um pouco mais.
Por uma época, eu chegava a pensar que ela estivesse enfrentando seu próprio karma. Nisso eu ainda acredito. Seria impossível que ela não evoluísse, tamanha a provação que teve pela sua passagem neste planeta. Mas creio que sua maior provação e seu maior sofrimento era enfrentar as limitações do corpo...
Dona Catarina sempre foi uma mulher forte e batalhadora. Das minhas memórias de menino, lembro perfeitamente de nossas andanças pelo centro da cidade, de como ela avançava rápida em passos miúdos e eu, também miúdo, me esforçava por segui-la. Lavava, passava, cozinhava, arrumava a casa. A dela própria e a de outros - quando precisava ou quando os outros precisavam.
Independente, nunca esperou que lhe dessem proventos: buscava sua própria maneira de sustentação. Nunca foi de ficar parada, esperando que seus problemas se resolvessem sozinhos (essa é a maior lição que aprendi com ela...)
Mas o corpo padece porque é "frágil, impotente e fraco". Embora sempre tivesse lutado contra as doenças que enfrentou ao longo da vida, estas sempre lhe deixaram sequelas. E, assim, a força e a energia dessa pequena grande guerreira foram-se indo...
Apesar de seus poucos 54 anos de vida, minha mãe passou a envelhecer drasticamente. Foi sobrevivendo tendo que conformar-se em que os outros lhe dessem condições para continuar... Teve que habituar-se a precisar dos outros porque não podia mais ficar sozinha. Eis uma outra provação, mas também outra grande lição!
Mas o fato é que, pra ela, era duro ter-se convertido em uma mulher dependente. Nos últimos anos precisava de ajuda para tudo. Já não tinha condições de cozinhar, lavar, passar... Foi se adaptando às coisas que ainda conseguia fazer porque, ora!, a uma mulher enérgica como sempre foi, sempre tem algo que ainda se possa fazer!
Debilitada, com a coordenação motora prejudicada e visão encurtada, ela passava horas vendo TV, roendo seus biscoitos favoritos, comendo seus amendoins salgados, "conversando" com suas novelas, acompanhando o futebol...
Dizia que não morreria antes de realizar 3 desejos: andar de avião, comer no Mc'Donalds e ir ao cinema.
O primeiro foi previamente realizado quando, acometida por grave pneumonia, ela teve de ser transferida de um hospital a outro; foi de helicóptero. Depois de algum tempo, já completamente recuperada, conseguia tirar graça da situação julgando esse desejo concretizado. "Pelo menos voei!" dizia ela.
O segundo foi facilmente realizado. Numa dessas tardes em que estávamos famintos com vontade de comer algo diferente, lá fomos nós ao Mc'Donalds levando a Dona Catarina. Em seus olhinhos sempre abertos, querendo enxergar tudo, eu via a satisfação de quem nunca pôde dar-se ao luxo de comer num lugar como aquele. Quando criança, sempre ouvi ela dizer que só gente rica comia lá.
O terceiro desejo fiz questão de realizar. Levamos ela ao filme "Trair e coçar é só começar", providencialmente um filme nacional, com estilo televisivo e com atores bem conhecidos dela. Fiquei maravilhado em vê-la maravilhada diante daquela imensa tela que parecia uma TV gigante. De novo seus olhinhos verdes se esforçavam para ver tudo... Esses mesmos olhos que, espero, nunca vou esquecer. Os olhos que, por vezes, eu flagrava olhando pro nada e me perguntava o que poderia se passar por trás daquele olhar!?
Na mesma ocasião do helicóptero, um momento ficou eternizado em minhas lembranças. Ela estava visitando minha irmã que mora no interior. Quando fui avisado que estava em estado grave no hospital daquela cidade, me desloquei o mais rápido que pude para vê-la. Quando lá cheguei, ela estava sozinha numa enfermaria, ligada ao oxigênio, respirando com muita dificuldade, sentindo muitas dores. Assim que apareci na porta, seu olhar se confundiu entre alegria e desespero. Eu ficava ao seu lado imaginando o quanto ela sofria e se era possível amenizar aquela dor. Ela me olhava como que pedindo socorro. Esta foi a primeira vez, depois de muitos anos, que eu e meus irmão estávamos todos juntos novamente. E não acreditávamos que ela fosse resistir.
Mas ela sobreviveu! E ainda passamos por muita coisa boa juntos! Mas, como a vida é mesmo cruel e nós, seres humanos, somos volúveis, foi difícil cuidar integralmente dela... Tentei dividir esse fardo com meus irmãos... Mas é difícil você colocar sua própria mãe como se fosse um fardo. E, exatamente por isso, não conseguíamos decidir quem cuidaria dela.
Bem... Sempre falamos que a única certeza que temos é a da morte. No caso da minha mãe, sempre soubemos que uma hora aconteceria, por mais que ela falasse que viveria até os 80 anos! Mas, de fato, nunca estamos realmente preparados...
E ela se foi. Em 09 de Setembro de 2007, partiu para a Eternidade.
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